Permacultura Na Mesa

A CONTRIBUIÇÃO DA PERMACULTURA PARA A PRODUÇÃO DE ALIMENTOS SAUDÁVEIS

Entendendo os mecanismos naturais

Sabemos que a agricultura dita “moderna” utiliza muito capital, pouca mão de obra e caminha rumo à exaustão dos recursos naturais. No entanto, nos países em desenvolvimento, a maioria dos agricultores é muito pobre para adquirir maquinário pesado e grandes quantidades de insumos (especialmente fontes não renováveis de fosfato), como prega este limitado e dependente modelo de agricultura.

Segundo Marcel Mazoyer e Laurence Roudart, no clássico “História das Agriculturas no Mundo – do Neolítico à Crise Contemporânea”, podemos afirmar que aproximadamente 80% dos agricultores da África, 40% a 60% dos da América Latina e da Ásia continuam a trabalhar unicamente com equipamentos manuais, e apenas de 15% a 30% deles dispõem de tração animal. Diante disso, ao contrário do que tem sido propagandeado, a agricultura dita “moderna” está muito longe de ter conquistado o mundo, simplesmente porque as outras formas de agricultura permanecem predominantes até os dias de hoje e ocupam a maior parte da população ativa dos países ainda em desenvolvimento.

Felizmente, um dos grandes diferenciais da Permacultura é não se prender aos problemas e sempre buscar utilizar os recursos locais e de baixo custo para apresentar soluções sustentáveis, práticas, de fácil implantação e viáveis sob a ótica da produção de alimentos saudáveis. Para tanto, considera como fatores básicos:

  1. 1.    Manutenção da fertilidade do solo;
  2. 2.    Otimização do uso dos espaços;
  3. 3.    Design que integre o maior número de elementos de um sistema;
  4. 4.    Interdependência (que envolve o cuidado com as pessoas e facilita a redução das desigualdades).

No artigo de hoje, tomaremos a floresta como modelo de agricultura ecológica e veremos os principais elementos que precisam ser considerados quando o assunto é a produção de alimentos saudáveis.

OS MECANISMOS NATURAIS

 

Estes mecanismos ainda são parcialmente conhecidos e provavelmente não conseguiremos desvendar por completo suas interrelações e complexidade. Diante destas limitações, a proposta é preservar os mecanismos básicos naturais para que os demais sejam automaticamente poupados. João Francisco Neto, em seu livro “Manual de Horticultura Ecológica – autossuficiência em pequenos espaços” considera os seguintes mecanismos básicos naturais:

  • Manutenção permanente da cobertura vegetal do solo – na natureza, em condições favoráveis de temperatura e umidade, o solo nunca estará sem cobertura vegetal (mulche). O mulche contribui para a manutenção do microclima ideal à biologia do solo e, com isto, favorece a fixação do nitrogênio atmosférico, mineralização da matéria orgânica e formação do húmus.
  • Reciclagem da matéria orgânica e dos nutrientes - permite que parte da radiação solar absorvida e dos nutrientes retirados do solo pelas plantas, ora convertido em mulche, seja decomposto por organismos vivos do solo (ex: minhocas, fungos, bactérias, entre outros) e reutilizados como fonte de energia e de nutrientes. A energia solar, captada na fotossíntese, uma parte é usada pelos organismos do solo, durante o processo de crescimento e reprodução, e parte é devolvida ao ambiente na forma de calor.

 

  • Diversidade, correntes alimentares e companheirismo – a diversidade proporciona o equilíbrio das populações das espécies presentes nos ecossistemas naturais. Nas correntes alimentares, ou cadeia, de uma forma geral, cada espécie representa um “elo” e todos juntos constituem uma corrente alimentar. Os primeiros elos são sempre vegetais (produtores) e os demais são consumidores. Além disso, as espécies mantêm entre si um relacionamento “social”, que poderá ser proveitoso, indiferente ou antagônico.

- O relacionamento proveitoso ocorre quando as espécies parceiras desenvolvem-se melhor do que em condições de isolamento. Mas em alguns casos, apenas uma das espécies ganha enquanto a outra não tem nenhum prejuízo.

- O relacionamento antagônico ocorre quando pelo menos um dos parceiros sai prejudicado.

Sabendo disso, a Permacultura procura planejar sistemas integrados que permitam colher os benefícios das associações de culturas mutuamente proveitosas.

  • Seleção Natural – o homem deixou parte da caça e da coleta para iniciar a agricultura e para isso utilizou-se das espécies que se desenvolveram segundo os ditames da mãe Natureza. Sabendo disso, para escolhermos as nossas sementes precisaremos retirá-las apenas das plantas que suportaram a ação do clima, das pragas, das doenças e da competição com ervas espontâneas (erroneamente chamadas de ervas daninhas) e que conseguiram produzir os melhores frutos, tubérculos ou raízes. Porém, é muito importante iniciarmos os nossos cultivos com as espécies mais rústicas (não híbridas), mesmo que neste primeiro momento sejam menos produtivas. Se você vai começar uma horta, recomendamos que inicie com espécies menos exigentes, como por exemplo, couve, salsa, nabo, rúcula, cebolinha, rabanete e cenoura. E depois de aprender com a prática, trabalhe com as mais exigentes, como por exemplo, alface, pimentão, beterraba, couve-flor, vagem, brócolis e outras.
  • Sucessão vegetativa – durante o processo evolutivo, cada espécie que surgiu na Terra encontrou um ambiente um pouco melhorado pela espécie antecessora e foi criando as condições ideais para a chegada das espécies sucessoras. E as sucessoras, à medida que surgiam, apresentavam características que permitiam um melhor aproveitamento da radiação solar, dos nutrientes presentes no solo e conversão de tudo isso, de uma forma mais eficaz, em matéria orgânica. A partir da matéria orgânica, passando pelo processo de mineralização, veio o húmus, que criou as condições favoráveis para o surgimento do homem.

Vamos nos despedindo por aqui, mas a nossa conversa continua no próximo boletim. Até lá, sugerimos que você busque praticar a produção local de alimentos, de forma isenta de contaminantes e o mais sustentável possível. Com isto, naturalmente, surgirão muitas dúvidas. Estas dúvidas são muito importantes para nós do Ecocentro e pretendemos tratá-las caso a caso ao longo do ano. Reúna todas elas para o nosso próximo encontro.

Abraços,

Gustavo Assis

Eng. Florestal

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